sábado, 15 de maio de 2010

Hoje eu acordei tão de saco cheio
Desse um a um agressivo, é tão nocivo...
pra nós dois...
Nos divertimos muito no agora
E agora?!E depois?
Nossa relação é feito gelo e pimenta
um esfria e o outro esquenta
Nós somos feito gelo, açucar e pimenta
um chega junto, outro afugenta
um levanta,outro senta
um desiste e o outro tenta
Hoje eu acordei tão farto da gente
Quando um bate, o outro sente
A gente se expõe, a gente mente
Tapa entre eu e você...
Aquele tapa indecente
E agora o que fazê?
Água, açucar a aguardente...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Cultivo em mim a saudade em leves tragos de solidão...
Trago em mim a lamúria com o sombrio azedo do fel...
sirvo pra fazer de contas e é no sono que busco a realidade pra me manter
vivo (?)
Sorrio amarelo quando meu dia pede verde, pinto de cinza quando quero vermelho...
Quando olho pro Sol vejo a lua e na noite troco a clareza dos meus pensamento
pela espuma da cerveja...
o gelo é quente pra quem se afina com o calor.
E de gole em gole vou permutando a minha dor.

terça-feira, 26 de maio de 2009

"Não somos apenas o que pensamos ser.
Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos;
somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, "sem querer"."

(Sigmund Freud)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A bola no meio, iluminada pelo Sol, como o ator principal é iluminado por suas luzes em seu palco.Rodeada por bailarinos que a conduzem para o gol: três balizas que juntas unindo-se ao chão são a porta para o orgasmo, ouvem-se gritos de prazer quando ela, a bola,atravessa essas três traves que se unem ao chão.
De um lado da bola, um menino.Um menino só,um menino triste.Um menino que mora num apartamento da zona sul,que pela sua janela assiste ao Corcovado e às crianças de sua idade que o excluem.Um menino isolado na escola, sem palavras, sem amigos e olhado só por desdém.
Esse menino é meio gordinho,têm sardas e cabelos ruivos,usa aparelho e uma voz que poucos escutam.É tímido, é fanho,é dito como feio.Horrendo,segundo as meninas do colégio.Foi batizado como Marcelo há uns treze anos atrás, mas quase ninguém o chama assim.Gordinho, cabeça-de-bagre, chupa-cabra são alguns dos adjetivos que passam por substantivos para chamá-lo.Ouve calado.
Uma vez ou outra, uma lágrima escorre pelo seu rosto, seja no quarto,em sua casa, ou no pátio da escola, onde passa trinta minutos sentado num banco, comendo seu lanche e vendo os outros brincarem, de segunda a sexta-feira .Quando essa lágrima escorre, ninguém percebe.
Sua mãe trabalha fora, dá pouca atenção a ele, foi criado por babás que também sempre foram hostis em seu trato com esse menino chamado Marcelo.Seu pai?Desse ele tem curiosidade, queria saber se usa barba ou não, qual é a cor de seu cabelo, de seus olhos, queria saber se é bonito.Só sabe que ele é presente uma vez por mês, com uma boa quantia na conta bancária da mãe.
Chuta uma bola de meia vermelha e preta em direção às paredes de casa: entre a estante de televisão e a do computador; entre a prateleiras de livros e a mesinha de som.De vez enquanto sai em busca de campos, onde ele joga quando é o par, campos onde ele não tem face.
Do outro lado da bola está um outro menino.Esse não é triste , é revoltado.Não é só porque no barraco onde reside, divide espaço com cinco irmãos mais novos, poucos desses irmãos têm o mesmo pai.De um buraco na parede do cômodo onde dorme, também vê os braços do Cristo Redentor, que nunca o abraçou.É analfabeto, nunca foi à escola.
É um menino de quinze anos, o chamam de Pagú.Seus dentes brancos raramente são expostos, é magro porém forte, alto e negro.Pés cortados, sempre descalços deslizam pelo asfalto da cidade.Mãos estendidas para esmola,mãos que jogam limões para o alto no sinal vermelho, mãos que engraxam sapatos pretos.Preto como ele .É um menino de quinze anos, um menino que sustenta a sua casa e os seus cinco irmãos.Menino de olhos negros como carvão.Olhos que viram a sua irmã, estuprada, ser seqüestrada por traficantes, olhos que viram seu pai ser morto a calibre 38 por policiais sem saber a razão.Ele não sabe a razão, seu pai não soube a razão e os policiais não tiveram razão.
Num dia de ódio, roubou um walk-man, e é nele que ouve funk pelas ruas da cidade.Tem uma cicatriz no braço direito,braço que um dia carregou a mãe,tendo uma crise asmática, para um hospital público.Olhos que viram a mãe pela ultima vez, por incompetência médica.
Gosta de jogar bola quando a encontra rolando por algum lugar.Como nesse dia que a viu no Aterro, em Botafogo, ou em algum canto do subúrbio.
A bola quase parada, iluminada pelo sol, em algum canto do Rio, sendo dividida por esses dois meninos.A bola, musa dos brasileiros. A bola, instrumento de catarse.Uma bola perdendo o couro, deslascada, sendo dividida por dois universos diferentes.A bola simbiótica, unindo dois universos diferentes.
E na mente desses dois meninos só se pensava “Essa bola é minha”.O que aconteceu antes não importa, é passado, é história.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Ela chegou atrasada, bem atrasada. Pontualidade era a menor de suas virtudes.A aula já beirava o seu fim.Abriu a porta sorrateiramente e com cuidados atravessou a sala desviando de mochilas e pernas desleixadas pelo caminho.
Sentou-se numa ilha de carteiras, a três mesas distantes do colega da frente, duas mesas a separava da menina do fichário rosa ao lado esquerdo e atrás dela parecia não haver ninguém. E se houvesse, nem notara.
Já com os olhos embaçados, pegou o caderno e uma lapiseira no bolso da frente da mochila, abriu o caderno, marcou uma pagina com a lapiseira e fixou olhares distraídos para o vazio de um canto da sala.
A primeira lágrima rolou enquanto o professor discursava sobre ciclo de Krebs. Lágrimas...Traidoras inconscientes dos segredos da alma.Não faz mal, ninguém havia notado.
A segunda lágrima escorreu sobre o seu rosto no momento que o professor tirava a dúvida de um menino alto sentado na frente. O que ele havia perguntado ela não saberia dizer. Estava fechada em suas lamúrias.
A terceira descera enquanto a turma se dispersava, nesse momento ouvia-se tudo, ouvia-se nada. Ela sentada isolada numa sala com sessenta alunos.E só, sessenta alunos ao seu redor realçando sua solidão.
A quarta pingou sobre o seu caderno, manchando um rabisco que ela havia feito num sem tempo. Passou o dedo procurando secar a gota em vão, colocou a franja de seu cabelo ruivo solta na testa atrás de sua orelha, fez outro rabisco qualquer no canto do caderno.
A quinta lágrima desceu preguiçosamente, caminhou sobre a sua bochecha, fez trilha em suas sardas, inovou trajetos. Continuou pendurada na maçã de sua face esquerda até ela olhar pra baixo, focalizou o nada antes de erguer a cabeça e ouvir por alto o que o professor comentava sobre a ação dos hormônios da tireóide no metabolismo do homem serrano.
A sexta lágrima escorreu com um pouco mais de violência, ardência nos olhos (ainda preso num ponto perto do nada na parede branca), comichão no nariz o rosto inchando.
A sétima lágrima foi a derradeira, teimou a largar a fossa lacrimal, mas quando resolveu migrar pra fora do corpo serviu de seta que esse instante era o instante de arrumar o material e partir.Não ficou mais que vinte minutos em sala.
Assim que saiu de sala, esbarrou com uma colega de outro estado no corredor surpreendida com sua cara amassada:
-Tá tudo bem?
-Agora sim...
e sorriu.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

A noite já caiu faz tempo.Aconteceu num bar da Lapa,da Cinelândia ou de Vila Isabel.Um homem sentado no balcão com um copo de cachaça na mão,olhava para o copo,olhava triste.Do outro lado do balcão estava um outro homem,um homem maduro,aparentava ter cultura.
O primeiro usava uma camisa social branca,tinha a pele enrugada e era careca,o segundo usava terno,tinha cabelo penteado e carregava uma pasta de couro.
Um bebia cachaça,o outro whisky.
O da cachaça de olhar melancólico,mirava seu copo de cabeça baixa,o de whisky reparava a tristeza do outro ,não parava de se perguntar sobre o que haveria acontecido com aquele homem careca para se estar com esse jeito angustiado,melancólico.Sentia solidão em seu rosto,seus movimentos eram retraídos,o gosto de choro preso na garganta.
Movimentos rodeando a cadeira do homem careca,gargalhas soltas,cervejas pedidas samba no rádio.Nada afastava a sua melancolia.De repente uma lágrima desce rolando sobre a sua face.Bar cheio,ninguém percebe..Menos ele,o homem de terno do outro lado do balcão.Tendo compaixão como motor de seu ato,ele se levanta pega o seu copo de whisky,coloca a pasta de couro debaixo do braço e senta-se ao lado do angustiado ser.Nem o percebe,não vira o rosto.Não se fala nada,ficam os dois bebendo as suas respectivas bebidas.Um vendedor de amendoim entra no boteco oferecendo seu produto.O senhor de pasta de couro compra três embrulhos de amendoim,pega um e oferece ao senhor de camiseta branca ao lado.Sem tirar os olhos do copo,ele educadamente rejeita.Intrigado com a tristeza do homem careca,intrigado com a sua face que destoa com a dos outros habitantes daquele bar,o homem de terno procura puxar uma conversa.
Os dois trocam algumas palavras,o homem de terno apesar de sério,é doce,enquanto o careca conciso em suas respostas,talvez por medo.Soa como um grito abafado,uma voz quase sussurrada,raramente olha nos olhos do outro,concentra-se sempre em seu copo,quase vazio.
“Aceita uma dose de whisky?” pergunta o senhor de cabelo penteado.É respondido com um pobre gesto de sim com a cabeça,sem nada falar,sem olhá-lo.
Duas doses de whisky servidas em copos separados em cima do balcão.Álcool subindo pela mente,receita para um diálogo fluir.O careca ainda retraído começa a confessar suas lamúrias,o homem de terno tudo ouve atencioso.Solidão,angústia,baixo-estima,carência fora alguns dos sentimentos revelados.Outra gota de lágrima,desce sobre o rosto e cai em cima da mesa do balcão.Pela primeira vez, o senhor careca vira-se para o colega de balcão,olha em seus olhos e diz: “Morrer.É a única solução.” Voltando os olhos para o copo.
Assustado o senhor de terno,procura persuadi-lo .Utilizou alguns argumentos,mas o principal foi: “Você gosta de circo?”
-Gosto.Responde o senhor careca..
“Antes de pensar nisso novamente,vá ao circo da praça quinze,lá tem o palhaço Fiquerinha ,se ele não te fizer rir,mais nada falo”
-Vou fazer isso.
Toma o seu gole,seu ultimo gole,se levanta,agradece ao homem de terno pela bebida e se despede.O homem de cabelo penteado o chama quando ele já está saindo do bar
“Desculpa,mas qual é o seu nome mesmo?”
-Figuerinha,palhaço Figuerinha.