sexta-feira, 16 de julho de 2010

Eu não sou a favor da lei seca. Nem um pouco. Acaba com a beleza de muitas mulheres e com a dignidade das pessoas. Outro dia eu estava á noite na esquina da Mem de Sá, tomando um suco de limão, com os olhos fechados tentando imaginar algumas doses de pinga ali dentro.
Eis que me aparece com passos largos e fortes uma voz uma...moça? moça...com um berro estridente como quem acabara de sair de um rodeio ( se a voz não saiu, a moça com certeza tava trabalhando, sendo enlaçada).
-Queriiiiiidôôô!!!
A primeira impressão que tive foi “Fudeu, serei comido! Essa saliva excedente não me engana!”
-Quanto tempo?! O que houve? Perdeu o celular? Quando te liguei dava como número inexistente...
-É, pois é?! (De que zoológico conheci essa simpática elefoa mesmo?)
-Vai dizer que não se lembra de mim? Tivemos uma noite incrível!
-Sério?! Perguntei tentando esconder a minha auto-decepção!
-Sim! Foi lindo! Ninguém nunca me tratou como você!
(Ninguém nunca bebeu tanto assim...só pensei.)
-Tá de sacanagem?!
-Pois é! Difícil acreditar que ainda existam homens como você!
E as pessoas ainda falam que álcool faz mal. Bebida faz um bem danado!
-E alguém viu? Perguntei tentando esconder a vergonha.
-Todos viram! Você é tão carinhoso em público!
-Merda!
-O que?
-Que legal!
-E ainda terminamos a noite na praia de Copacabana, fizemos um amor tão gostoso no seu carro!
Agora eu entendi porque o meu amortecedor foi para o espaço...
Não agüentei a pressão.
-Salomão! Me dá uma dose de Stenheiger, caipirinha, caipivodka, caipirissima, caipiranha...e não tem absinto não? Aquele da Índia? Então faz o seguinte, me dá um pouco daquele álcool de cozinha...
Pensando bem, ela não é tão feia assim...
Quanto a lei seca, to precisando tirar umas férias mesmo, recuperar minha imagem...dizem que em Bangu o tempo tá agradável, bom pra pegar uma cor...

sábado, 15 de maio de 2010

Hoje eu acordei tão de saco cheio
Desse um a um agressivo, é tão nocivo...
pra nós dois...
Nos divertimos muito no agora
E agora?!E depois?
Nossa relação é feito gelo e pimenta
um esfria e o outro esquenta
Nós somos feito gelo, açucar e pimenta
um chega junto, outro afugenta
um levanta,outro senta
um desiste e o outro tenta
Hoje eu acordei tão farto da gente
Quando um bate, o outro sente
A gente se expõe, a gente mente
Tapa entre eu e você...
Aquele tapa indecente
E agora o que fazê?
Água, açucar a aguardente...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Cultivo em mim a saudade em leves tragos de solidão...
Trago em mim a lamúria com o sombrio azedo do fel...
sirvo pra fazer de contas e é no sono que busco a realidade pra me manter
vivo (?)
Sorrio amarelo quando meu dia pede verde, pinto de cinza quando quero vermelho...
Quando olho pro Sol vejo a lua e na noite troco a clareza dos meus pensamento
pela espuma da cerveja...
o gelo é quente pra quem se afina com o calor.
E de gole em gole vou permutando a minha dor.

terça-feira, 26 de maio de 2009

"Não somos apenas o que pensamos ser.
Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos;
somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, "sem querer"."

(Sigmund Freud)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A bola no meio, iluminada pelo Sol, como o ator principal é iluminado por suas luzes em seu palco.Rodeada por bailarinos que a conduzem para o gol: três balizas que juntas unindo-se ao chão são a porta para o orgasmo, ouvem-se gritos de prazer quando ela, a bola,atravessa essas três traves que se unem ao chão.
De um lado da bola, um menino.Um menino só,um menino triste.Um menino que mora num apartamento da zona sul,que pela sua janela assiste ao Corcovado e às crianças de sua idade que o excluem.Um menino isolado na escola, sem palavras, sem amigos e olhado só por desdém.
Esse menino é meio gordinho,têm sardas e cabelos ruivos,usa aparelho e uma voz que poucos escutam.É tímido, é fanho,é dito como feio.Horrendo,segundo as meninas do colégio.Foi batizado como Marcelo há uns treze anos atrás, mas quase ninguém o chama assim.Gordinho, cabeça-de-bagre, chupa-cabra são alguns dos adjetivos que passam por substantivos para chamá-lo.Ouve calado.
Uma vez ou outra, uma lágrima escorre pelo seu rosto, seja no quarto,em sua casa, ou no pátio da escola, onde passa trinta minutos sentado num banco, comendo seu lanche e vendo os outros brincarem, de segunda a sexta-feira .Quando essa lágrima escorre, ninguém percebe.
Sua mãe trabalha fora, dá pouca atenção a ele, foi criado por babás que também sempre foram hostis em seu trato com esse menino chamado Marcelo.Seu pai?Desse ele tem curiosidade, queria saber se usa barba ou não, qual é a cor de seu cabelo, de seus olhos, queria saber se é bonito.Só sabe que ele é presente uma vez por mês, com uma boa quantia na conta bancária da mãe.
Chuta uma bola de meia vermelha e preta em direção às paredes de casa: entre a estante de televisão e a do computador; entre a prateleiras de livros e a mesinha de som.De vez enquanto sai em busca de campos, onde ele joga quando é o par, campos onde ele não tem face.
Do outro lado da bola está um outro menino.Esse não é triste , é revoltado.Não é só porque no barraco onde reside, divide espaço com cinco irmãos mais novos, poucos desses irmãos têm o mesmo pai.De um buraco na parede do cômodo onde dorme, também vê os braços do Cristo Redentor, que nunca o abraçou.É analfabeto, nunca foi à escola.
É um menino de quinze anos, o chamam de Pagú.Seus dentes brancos raramente são expostos, é magro porém forte, alto e negro.Pés cortados, sempre descalços deslizam pelo asfalto da cidade.Mãos estendidas para esmola,mãos que jogam limões para o alto no sinal vermelho, mãos que engraxam sapatos pretos.Preto como ele .É um menino de quinze anos, um menino que sustenta a sua casa e os seus cinco irmãos.Menino de olhos negros como carvão.Olhos que viram a sua irmã, estuprada, ser seqüestrada por traficantes, olhos que viram seu pai ser morto a calibre 38 por policiais sem saber a razão.Ele não sabe a razão, seu pai não soube a razão e os policiais não tiveram razão.
Num dia de ódio, roubou um walk-man, e é nele que ouve funk pelas ruas da cidade.Tem uma cicatriz no braço direito,braço que um dia carregou a mãe,tendo uma crise asmática, para um hospital público.Olhos que viram a mãe pela ultima vez, por incompetência médica.
Gosta de jogar bola quando a encontra rolando por algum lugar.Como nesse dia que a viu no Aterro, em Botafogo, ou em algum canto do subúrbio.
A bola quase parada, iluminada pelo sol, em algum canto do Rio, sendo dividida por esses dois meninos.A bola, musa dos brasileiros. A bola, instrumento de catarse.Uma bola perdendo o couro, deslascada, sendo dividida por dois universos diferentes.A bola simbiótica, unindo dois universos diferentes.
E na mente desses dois meninos só se pensava “Essa bola é minha”.O que aconteceu antes não importa, é passado, é história.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Ela chegou atrasada, bem atrasada. Pontualidade era a menor de suas virtudes.A aula já beirava o seu fim.Abriu a porta sorrateiramente e com cuidados atravessou a sala desviando de mochilas e pernas desleixadas pelo caminho.
Sentou-se numa ilha de carteiras, a três mesas distantes do colega da frente, duas mesas a separava da menina do fichário rosa ao lado esquerdo e atrás dela parecia não haver ninguém. E se houvesse, nem notara.
Já com os olhos embaçados, pegou o caderno e uma lapiseira no bolso da frente da mochila, abriu o caderno, marcou uma pagina com a lapiseira e fixou olhares distraídos para o vazio de um canto da sala.
A primeira lágrima rolou enquanto o professor discursava sobre ciclo de Krebs. Lágrimas...Traidoras inconscientes dos segredos da alma.Não faz mal, ninguém havia notado.
A segunda lágrima escorreu sobre o seu rosto no momento que o professor tirava a dúvida de um menino alto sentado na frente. O que ele havia perguntado ela não saberia dizer. Estava fechada em suas lamúrias.
A terceira descera enquanto a turma se dispersava, nesse momento ouvia-se tudo, ouvia-se nada. Ela sentada isolada numa sala com sessenta alunos.E só, sessenta alunos ao seu redor realçando sua solidão.
A quarta pingou sobre o seu caderno, manchando um rabisco que ela havia feito num sem tempo. Passou o dedo procurando secar a gota em vão, colocou a franja de seu cabelo ruivo solta na testa atrás de sua orelha, fez outro rabisco qualquer no canto do caderno.
A quinta lágrima desceu preguiçosamente, caminhou sobre a sua bochecha, fez trilha em suas sardas, inovou trajetos. Continuou pendurada na maçã de sua face esquerda até ela olhar pra baixo, focalizou o nada antes de erguer a cabeça e ouvir por alto o que o professor comentava sobre a ação dos hormônios da tireóide no metabolismo do homem serrano.
A sexta lágrima escorreu com um pouco mais de violência, ardência nos olhos (ainda preso num ponto perto do nada na parede branca), comichão no nariz o rosto inchando.
A sétima lágrima foi a derradeira, teimou a largar a fossa lacrimal, mas quando resolveu migrar pra fora do corpo serviu de seta que esse instante era o instante de arrumar o material e partir.Não ficou mais que vinte minutos em sala.
Assim que saiu de sala, esbarrou com uma colega de outro estado no corredor surpreendida com sua cara amassada:
-Tá tudo bem?
-Agora sim...
e sorriu.